Wednesday, July 28, 2010

As aves

As aves bebem aqui - embriagam-se talvez, afogam-se talvez - reversíveis nos seus ciclos da sede como as luas
As aves que bebem aqui são o excessivo desejo de Desejo: a matriz de todo o eu potável
Todas alcoólicas as aves desejam mais do que asas e bebem mais do que todo o eu potável
As aves bebem o Desejo onde o desejante se deseja desejante
ciclos da sede com as luas - repito-me repete-me antes que as feridas falem

As aves bebem aqui
o meu desejo
fazem círculos entre Desejar e Desejar
e crescem até aos ramos superiores de toda a fala das feridas potáveis

("aqui" - faço uma cruz com o sopro dos meus dedos para não esqueceres Onde
toca aqui com o sopro dos teus dedos, pois tocar nunca esquece o seu ser tocado
queria também que beijasses aqui como se fosse uma ferida que só o lento beijo cura)

Le crépuscule du tournesol


chaque tournesol connaît les paraboles de son absence
et l'absence dans une langue recèle un champ de blé futur

pas tous les Messies embrassent le tournesol et son crépuscule

autrement le blé futur serait une orbite plus désirante que désirée

Caminhos

O Grande Parque de Diversões é como o Dicionário: tem muitos caminhos, mas poucos rumos com desfechos singulares.
Por regra e por excepção, tudo está salvo. quase sempre por absoluta necessidade imanente aos músculos vivos.

Quem seguir pela voz A... irá ao Inferno, mas depois de passar a montanha das neves eternas.
Quem seguir pela voz B... irá ao Inferno, mas depois de passar o jardim dos enganos.
Quem seguir pela voz C... irá ao Inferno, mas depois de passar o carrossel dos imóveis.

Portanto, muitas são as portas dos Infernos, mas todos os Infernos terminam cedo... na Ilha dos Amores.
Optimismo metafísico para evitar desidratação durante o sono.

Tuesday, July 27, 2010

Ainda


Não sei pôr os pés no chão
nem traçar uma linha recta
entre o sol e os meus olhos.
Respira-me o fogo exacto
de dentro duma pedra de silêncio
em desequilíbrio.



Tudo arde sobre a pele e a pele sobre tudo.
Ainda.

Menina: Estória


(Amar-me e amar-te sem contradição. Excede-me. Permaneço imóvel
diante dos verbos do impossível. Até que talvez descubramos que.
Que nada nunca ninguém. Nos. Poderá. Extinguir.)

(Temos fome temos sede temos frio: não temos nada.
Não há explicação para tanta carência. Hesito sobre a verdade do caos.)

(A minha fome seria hoje um incêndio final numa página em branco
como uma boca afónica aberta sobre o silêncio que deveria ser grito.
Uma linha de água de saliva de sangue. Três linhas exactamente. Dentro e fora. Fazem tanto.)

(Menina virgem me arrancaram de casa de meus pais para este Naufrágio!
Qual fosse então a causa desse arrancamento eram infinitas não sei dizer uma. Hoje não lhe ponho outra causa nem outra Origem funda
senão o Desejo feroz de…)


(Talvez fosse também um ódio subtil de mim
ódio da minha virgindade que exprimia a essência voraz
da minha peregrinação invertida.)

(Pudesse ao menos a minha promessa de um texto absurdo trazer consigo
um acréscimo de fogo sem cinza para o rio infinito do Desejo.
Nem todos os rios são navegáveis muitos têm mais margens do que águas.
Aí crescem pedras árvores e cabelos de mulheres. Do seu crescimento
exala um silêncio denso soprando o perfume vivo das viagens
em círculos inacabados de. Intensamente. Descompreender-me.)

Sublinho-Te


Sublinho-Te para te amar melhor.
Também um rio corre nesta cidade Amor.

Neste rio, cantam todos os rios das cidades Onde.
E dos rios Por-Onde-Até

A respiração queima levemente a tua língua
e a epiderme do universo aquece globalmente. Desde as mãos.

Os olhos incendiados e líquidos das mãos avançam até à sombra.
Fazem e desfazem os fios de luz de sublinhar-Te.

Por Fim chegamos à Origem: por Fim começamos.
A pele profunda intangível: as veias gritam abertas.
Os tecidos musculares dizem Sol

Tuesday, July 13, 2010

Histórias

Era um poeta muito libidinoso.
Aos oitenta anos, interrogava-se ainda sobre o mistério do "abdómen das adolescentes" que tanto lhe ardia em cada expiração...