Thursday, January 6, 2011

as mãos quebradas

a pele é a água mais sagrada. a pele recua infinitamente. uma onda inversa. chama-se noite absoluta. morrem aí as mãos. num instante de lenta queda contra nada. ou contra o intocável. morrem quebradas.

também o esforço de uma carícia pode acabar o mundo.

Sunday, January 2, 2011

dizer fogo


fazes vento de gelo e fogo. desenhas contradições frente ao mar.
as nossas mãos são animais errantes que perderam os sentidos. nas margens. nas nascentes. nos textos ardentes que queimam os lábios e quebram a respiração.
os teus degraus de sílabas sobem até ao princípio da carência. conduzem ao teu litoral sem linguagem outra que ascensão de chamas. lábio a lábio. todo o horizonte é de cavalos trazendo a terra inteira com seus vulcões originais. começa a nudez. primeiro Verão. passagem de aves. ondulação perpétua. seremos adolescentes nus. à porta do sol.
o sopro lento dos lábios traz a loucura dos relâmpagos. seu uivar de lobos ou de violoncelos jovens. despe muitos barcos de memórias mortais. ensina-me o vinho que acende o corpo. aproxima-me do fogo. até ao fim das estrelas.

library follies


she is at the heart of the library.
in a sense. we are still looking for each other.
there must be a parallel reality that allows our flight and our birds. I underline the Possible.
everything that is desirable should blossom and flow powerfully. from its absoluteness. the spring. the truth.

she went to the library. hoping. vibrating. the thread might guide her steps. towards and from the monster. the ancient labyrinth enclosed a monster. she recalls the idea. it was the same idea today. pervasively. assault. her body fully or vastly exposed to the same idea.
she dares not repeat the inner sound of a joint breathing. her lungs could implose. she dares not. and yet. she insists on wandering. thread against thread. through the double-edged swords of the most dangerous symbols. there are no texts. no longer. her breath becomes ostensively wet and warm. the page changes in color and touch.
the ancient walls of the labyrinth were and were not our bodies. before the sea.

we had that project of love-making. at the heart of the library. there are plenty of possibilities. waiting for the bodies.
the library was the new labyrinth. the monsters left in disguise. inhabit outside now. for ever.

Friday, December 24, 2010

absoluto indefinido


estou a ver-me a ir ao mar. nitidamente. no coração do inverno.
estou sozinho. as minhas rochas interiores bramem como tigres, uivam como certos silêncios.

as aves soltam espuma de dentro do sol. estou sozinho. no vértice da espera. uma fenda de alto abaixo. no segredo. Dirás sim e não. muitas vezes. sem contradição. acontecerão lagos e ondas na tua arquitectura quase voadora.

Receio as linhas rectas. as suas detonações contra as portas em mim. gota a gota. soma-se a minha sede à tua sede. pergunto-me sozinho. se chegarás. a tarde toca na impossibilidade de beber o sol. o futuro é um incêndio longínquo que me arde nas extremidades. a vida dança-me e bate-me nos olhos. estarei sozinho. se vier a tua chegada. nascerei quando desejares que o meu corpo respire. castelos no ar. hesitaremos entre o mar e a floresta em busca do êxtase. nasceremos em chamas.
estou sozinho.

Não. Sim. incertamente virás. os lobos das fábulas crescem entre sim e não. talvez. sofrem muito. desarmados de carícias entre as árvores.

queria desenvolver-me em paisagem onde a espera fosse o ritmo dos animais apaixonados. a loucura traz um anjo que entra na substância das coisas. nossa música. haverá. se me esquecer de quem sou. a memória da música no corpo incandescente até ao fim ou origem.

pedes-me a língua. dou-te a fonte inteira. sem angústia. esperarei.
chegou o mar. chegará a tua boca.
hesito se a nudez será a Hora.

para lá das forças (construtivas e destrutivas) da esperança.

Wednesday, December 22, 2010

aproximação


no esforço da aproximação, o corpo sente a distância com íntima exactidão.
todos os músculos estremecem diante da expansão do Vazio. as mãos compreendem a alteração do espaço numa vertigem de passagens e do tempo numa aceleração inclinada para a superfície dos sentidos completos...

a verdade passional é (e não é) uma hipótese de Oceano entre os lábios... melancolia com chocolate pode (e não pode) salvar uma Vida

Herself as Path and Abyss


this explosion was herself without compromise. true. she had something new, forcing less and less, blowing the doors wide open... yet she was not fully aware of all butterflies, questions of belief and unbelief, very hot and red... she had no fixed definition for pain nor vertigo nor womb quakes... though she had it all. too much.

silence was easier to drink than rain. but desert grounded the deployment of oscillations. striving for the contrary sun. the inner beginning of heat waves against the rocks of nothing.

could the dynamic of the only language come to the surface? burning slowly and acutely

Tuesday, December 7, 2010

a gramática sagitária dos rios


Os Amantes aproximam-se dos rios para estudarem as gramáticas das suas vidas fluidas... estudam as torrentes de inverno, os meandros das margens, as fontes dos afluentes, a arquitectura das pontes, as ânsias dos remadores, os estuários das aves, as artes do transbordo, as rotas dos cardumes, as emoções da foz... ficam, assim, mais íntimos do seu Mistério Indomável das contra-correntes...

Dos Amantes da Intensidade e da Plenitude escrevem-se epopeias com grandes navegações de corpo inteiro... A sua Escrita convoca todas as armas em chamas e a nudez divina da Alegria...

Os arcos estão tensos, as setas apontadas, os músculos prontos: o chão levanta-se vertical diante de deuses ofegantes, aflitos. A espiga, a concha, a floresta, a pedra... entram no combate contra os monstros inimigos de Eros e de Kosmos...

Um oráculo disse Desejo. Outro Nada. A polpa do fruto arde lentamente como a espada elástica da Noite. A ordem do ritmo aprofunda o abismo e o espelho dos segredos.
O movimento inclina as colunas da terra e do céu face à luz do Nu. Desabam todos os impérios de abandono com o silêncio das águas... Vem o sol - meia-noite meio-dia - pelas curvas proféticas das melodias inacabadas... É manhã ou será. A textura da pele cobre a hora de claridade.