Tuesday, March 17, 2020

Ponte Noturna


A Noite é imensa e tem muita sede e flui dentro de pássaros e flui como um rio A Noite filha do Kaos filha do Vazio A Noite toca na flor do tempo brinca com as pétalas do tempo A Noite é o perigo e o mel do perigo e o beijo do mel do perigo A Noite é a Sereia Infinita com o Vasto Canto que seduz e seduz tanto todos os músculos que perdem a ligação à voz
A Noite é onde é quando é como imaginamos todas as bocas do corpo a beber furiosamente todo o corpo A Noite tem ao fundo da sede as sensações contrárias A Noite promete o Dom do sonho permanente mas uma sombra de veneno e uma sombra de medo de veneno ataca o poder-de-sentir
A Paz da Noite é uma esperança inquieta A Paz da Noite é a inquietação que cobre o cabelo e inunda rosto e desaba sobre a profundidade de meu corpo sonhador A Noite trava acelera confunde os motores profundos do meu corpo sonhador A Noite filha do Kaos filha do Sono ondulante A Noite está sempre pronta sempre armada sempre com o seu golpe iminente capaz de ferir a Coragem dos guerreiros que saem a gritar e entram a gritar pelas curvas da Noite Os guerreiros gritam contra os ventos da Noite gritam para esquecer o medo a densidade do medo esse óleo tão antigo que ata e desata o corpo inteiro esse óleo penetrante do medo onde se banha o mundo ou o sismo do mundo quando começa a hora da espada e do sangue A Noite derrama a solidão pelos quartos da cidade e interroga quem se aproxima do vidro com seu canto de Sereia Infinita entrando na minha boca rendida mais rendida do que uma ilha subitamente submersa A Noite filha do Kaos atravessa-me líquida Não compreendo nada desta Matéria que subitamente submerge as ilhas e dilacera as mãos dolorosamente sós
A Noite filha de Kaos filha de Infinito Kaos promete Paz com o Canto da Sereia Infinita 
A Noite constrói uma Ponte de Vento até ao peito originalmente feroz dos homens o peito das memórias-lâminas incansáveis memórias-lâminas com movimento perpétuo O peito desses homens toca no silêncio da Incerteza filha da Noite filha de Kaos filha da Plenitude Infinita de Kaos: como se chamam todos os pássaros? 
Esses homens do peito originalmente feroz agora rastejam exaustos sobre destroços de pedra que antes era chão-de-mundo, porque o chão era uma crueldade para o Vulcão-do-Mundo. Não acredito na solidez do chão-de-mundo que oculta a liquidez do rio e a sede interminável da Noite filha de Kaos, inquieto espaço de viagem
Não acredito na pedra do chão-de-mundo que cala a Fonte-em-mim e me ordena para que fuja de mim mesma... Na fuga cai a Ponte. A inacabada Ponte e o inacabado Texto de Amar-Te. Tanta Claridade abrupta.
A Noite constrói sempre outro rio para a Ponte e destrói sempre outra Ponte para o rio
A sede terrível do coração explode pedras, procurando e fugindo algo-alguém, nada-ninguém, confusa pela melancolia de um acidente, prostrada pelo peso de um pânico
Que vertigem é esta? 
uma alegria alucinante uma onda transparente que se apaixona pelos sonhos dos pássaros noturnos
Que vertigem é esta?
não compreendo nada do corpo gerador que anoitece abrindo a porta
Podemos dizer: a Noite é quase tudo
Compreender a Noite é Caminhar-em-mim-própria 
enquanto o luar lancinante invade a ânsia
sou toda sou inteira a avidez de um voo
Sou a que chora sem saber porquê
onde desaguar onde acender o Rio-Mar
onde devagar a ternura desenvolve pétalas em chamas 

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