Tuesday, August 26, 2025

manuscritos


 os manuscritos aquecem a argila da casa, os arcos de argila da casa, as mãos fazem o espaço-tempo do corpo-manuscrito, mãos lentas oscilando entre o fogo-do-chão e o vento-da-janela

por vezes os manuscritos são ruínas: os primeiros manuscritos elaboram as primeiras ruínas, enquanto a argila aquece nas mãos, ambas as mãos perdidas, reencontradas nas elipses que unem o círculo do peito e o círculo do ventre

por vezes os manuscritos são alimentos: os primeiros manuscritos cozinham os primeiros alimentos, enquanto as mãos exaustas pressentem o impulso de uma carícia capaz de tudo: rasgar os primeiros manuscritos ou proteger os sinais vitais desses primeiros manuscritos     

poema feminino como expressão-invenção-descoberta


 Porquê imaginar e escrever sob a vitalidade de uma Mulher-Poeta, Eva F.? 

Entre "Órbitas Primitivas" (Famalicão: Quasi, 2007) e "Desejo Primordial Infinito" (Lisboa: Atlantic Books, 2024), escrever é um esforço espiritual de aproximação da vida sentida, expressa, comunicada e (des)compreendida no feminino. Antes de escrever, é necessária uma nutrição de literatura feminina, especialmente contemporânea, para permanecer neste mundo e nesta cadeia próxima de gerações que vibram ainda agora na minha atmosfera e que se encontram ainda agora na minha respiração inquieta. Leio e estudo: Florbela Espanca e Natália Correia, Clarice Lispector e Hilda Hilst, Emily Dickinson e Sophia Andresen, Alejandra Pizarnik e Ingeborg Bachmann, Sylvia Plath e Anne Sexton, Audre Lorde e Paulina Chiziane...).

Os livros dessas mulheres nutrem a escrita de meu espanto. Meus poemas desejam significar um processo de expressão-invenção-descoberta, como se fossem sempre somente a escuta imperfeita de um único poema feminino contínuo e quebrado, orgânico e ferido. As raízes crescem à superfície e ao fundo, há transparência e segredo, exposição e claustro. Cada poema persiste o desenho Infinito da Mulher-Poeta: um nu sempre incompleto e um labor sempre inacabado, talvez a intimidade plena seja impossível, talvez a perplexidade seja inexcedível.

A língua descobre-se: finitude impregnada de espontaneidade desejante infinita ou transfinita. Aqui e agora, cada poema permanece no Princípio um Desejo de encontro face-a-face, silêncio entre as palavras. 

Os símbolos do Desejo-de-encontro procuram interrogar-se, exclamar-se, entender-se nas figuras expressivas da aproximação e da confidência, como se minha mãe, minha irmã, minha amiga estivessem aqui e agora, falando, murmurando, soletrando a relação vital com o sentido e o absurdo... Compreendes-me no desejo de ser própria? fazer acontecer o momento de expressão-invenção-descoberta de mim?

Monday, August 25, 2025

Eros, o Opressor e o Libertador


 Na sombra das paredes do Labirinto, faz frio e dói
Eros constrói paredes novas no Labirinto das carências
Eros, o Opressor

A sombra do labirinto é gelo e dói. 
Todos os músculos doem sob a máquina do Labirinto gerando gelo
injetando gelo nas veias de Ariane, a perdida, a mais corajosa na hora de perder
Ariana é a audácia de penetrar no terror 
desfiando a Invenção do Retorno

Nos olhos de Ariana, brilha Eros, o Libertador

(Quando a dor do frio faz parar o corpo no meio de nada
a confusão geográfica interroga-me: Será a Crueldade uma matéria divina?
Será a Crueldade o zénite da história noturna?)

No fim do Poema, há outro Poema do Fim colhendo os espinhos
colhendo somente espinhos durante o nu incompleto da Libertação

o Poema do Fim colhe espinhos com a ternura dos moinhos
moendo espinhos para a farinha do pão final 
tanta fome no Fim do Poema ao sol
doendo também
como se calor e frio fossem a mesma máquina cruel
que mata a fome

o Poema colhe espinhos ao sol 
meu sol face-a-face meu sol virgem meu sol nascente 
partindo para o distante teu peito sucumbindo na corda da minha harpa
sem nenhum lamento 

meu zénite de minha história noturna desfiando a Viagem e a Casa
zénite mais nu e zénite mais sanguíneo do que espuma de rosas 
após a colheita dos espinhos e os segredos penetrantes da farinha 

Wednesday, August 20, 2025

Eros, o Radical e o Réptil


 Um raio de obscuridade atravessa o Sol: é uma flecha-enigma de Eros, o Radical, e de Eros o Réptil, que ataca ao Meio-Dia e abre as veias do Tempo Inteiro, porque simplesmente e absolutamente deseja saber as causas primeiras e últimas e medianas, causas por dentro e por fora e através, 
a força das causas e sobretudo
a energia da força das causas e sobretudo
a fonte da energia da força das causas e sobretudo
a plenitude e o vazio das fontes, as fontes mais íntimas das raízes
as raízes mais íntimas dos répteis, os répteis mais íntimos da terra vermelha e da carne vermelha

Há um medo abstrato da História que Eros deseja saber para poder atravessar os raios mais negros ao Meio-Dia e à Meia-Noite quando os olhos aderem ao Invisível, as Pálpebras Descidas tocando talvez em nada, talvez no ar, talvez no pó  

Thursday, August 14, 2025

Eros, o Arquiteto


 Eros, o Arquiteto que transforma o corpo, a casa, o mundo 

Eros, o Construtor e o Persistente, fiel às Artes do Limite onde a imaginação inventa as matérias quentes, as cores quentes, os espantos tão quentes que queimam a pele com a Liberdade Absoluta

Eros, a Inteligência extática, a Evidência do Projeto de todas as habitações e de todas as passagens 

Eros, o Hipnotizador


Eros, o Hipnotizador

(alteração indefinida dos sentidos enquanto perdura sua força) 

Eros, o Ondulante

(alteração indefinida dos equilíbrios enquanto perdura sua força)

Zarathustra and Heraclitus: Always playing with camels and fire in the desert

 Only the desert can appease the craving for fullness, only the fire can appease the fear of darkness, only the strongest camels can cross m...