Wednesday, January 25, 2012

ânsias


chegou a uma altura em que sentia tantos sinais dispersos pelo corpo, quase-dores, quase-nadas, impressões febris, energias a contra-corrente, percorrendo músculos e articulações... enfim, receou que morria, sem pânico. Parecia-lhe atraente e acridoce a ideia de morrer jovem, como um pássaro que se apaga em pleno voo. Mas como as forças volviam sempre às linhas habituais, apesar das abundantes quase-dores, quase-nadas, perguntava-se a si mesma se não seria o sentimento do corpo que entrava pelo caos. Ponderava, então, se não estaria antes a perder o nexo dos sentidos e dos vividos, dos atos e dos afetos... se não estaria a enlouquecer... Na verdade, nas horas das transições entre a vigília e o sono, começou a confundir tudo... No seu esforço de auto-interpretação, passou à escrita e ao desenho dessas passagens confusas entre ser e ser e ser e mais. havia muitas vozes indecifráveis que deixavam uma melodia obsessiva e uma atmosfera densa de ânsias...
até que um dia, entre as 7h e as 7.30 da manhã, enquanto acordava e submergia no sono, reviveu, com cenas intensamente seletas, três passagens pelo tecido vibrátil do útero: primeiro, o trabalho de parto do seu próprio nascimento (e sentiu todo o corpo dorido da passagem por um canal), depois, a sua primeira vibração de prazer (e sentiu a quase-perda dos sentidos), por fim, a violência da lenta expulsão uterina do filho único... transpirou muito com as últimas imagens sobrepostas: o extenso contacto pele-a-pele do recém nascido com os seus peitos e a costura fria dos tecidos rasgados ao fundo...
O que significa? não se pode fechar o que vibra. ânsias de útero contra o doloroso natal. porquê nascer em lágrimas?

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