Tuesday, September 9, 2025

Xerazade procura o Mar ao fundo da Noite


 Xerazade fia e tece e trama, com a imaginação colada à língua, ligando as noites umas às outras, como se houvesse um túnel em construção na sua voz, um túnel por onde as estórias se furtam à Crueldade da Morte com a esperança de um dia o Sultão se transforme... esqueça o Projeto de fazer sangrar todas as mulheres em sacrifício vingativo pelo sofrimento de Abandono...

O Sultão sofre de melancolia erótica destrutiva... mortífera... 
Que Terapia seria possível? 
Como lançar Eros-de-Vida contra Eros-de-Morte e vencer para sempre... no vértice de uma metamorfose fulgurante

A Paixão narrativa noturna de Xerazade é uma sublime Paixão-de-Defesa, num cenário de Fuga impossível.

Xerazade é a prisioneira que prende o seu Prendedor: Ninguém pode afastar-se de ninguém, como se os cabelos de todos se tivessem emaranhados num novelo indestrinçável. Ninguém pode rodar minimamente a cabeça sem denunciar um movimento suspeito...

E se Xerazade começasse a contar estórias de viagens marítimas e procurasse um porto de mar ao fundo da Noite, despertando o Desejo Oceânico no palácio de pedra... desencadeando nas suas pedras uma ânsia de ser madeira de barco...


Friday, September 5, 2025

As estórias do Lago


 Vives numa cabana frente ao lago

(you live in a cabin in front of the lake)


Partiste para o Sul como se fosse uma fuga do mundo, 

(You left for the South as if to escape the world,)


mas, no final, vieste fazer a paz com o mundo, 

(but, in the end, you came to make peace with the world,)


muito mais do que paz, vieste fazer amor com o mundo! É inesperado para o próprio mundo!

(much more than peace, you came to make love with the world. It's unexpected to the world itself!)


Para os teus pais do Norte, tu estás escondida algures no infinito Sul... 

(For your parents in the North, you are hidden somewhere in the infinite South...)


Para eles, é como se tivesses morrido ou sido condenada ao Degredo.

(For them, it is as if you had died or been condemned to exile.)


Aqui, chamava-se Degredo, a condenação ao Fim do Mundo! 

(Here, it was called Exile, the condemnation to the End of the World!)


Para mim, o Fim do Mundo foi o Princípio da Possibilidade do Mundo.

(For me, the End of the World was the Beginning of the Possibility of the World.)


Sim, vim livre, liberta, livremente. Permaneço livre, liberta, livremente.

(Yes, I came free, liberated, freely. I remain free, liberated, freely.)


Nunca imaginei que fosse possível tanta liberdade ao mesmo tempo no Princípio do Mundo: liberdade-de-, liberdade-para-, liberdade-com-, liberdade-sobre- 

(I never imagined so much freedom was possible at the same time in the Beginning of the World: freedom-from, freedom-for, freedom-with, freedom-over.)


Não sei quantos sentidos de Liberdade e de Libertação e de Livremente é possível "pensar"... "pensar", isto é, "falar comigo", "dizer-me o que vivo no meu diálogo claro e silencioso". Por isso, tenho inventado palavras ou desistido de palavras e feito alguns gestos novos para "significar". O sentido vivido excede "viver-na-linguagem". "Significar" é mais profundo do que "verbalizar" e do que pensar verbalmente. Há uma inteligência pensante, raciocinante, compreensiva, mais funda do que esse "diálogo" que escorre à superfície da língua.  

(I don't know how many meanings of Freedom and Liberation and Freely it's possible "to think"... "to think," that is, "to speak with me," "to tell me what I live in my clear and silent dialogue." Therefore, I have invented words or abandoned words and made some new gestures to "signify." Lived meaning exceeds "living-in-language." "Signifying" is deeper than "verbalizing" and than thinking verbally. There is a thinking, reasoning, understanding intelligence, deeper than this "dialogue" that flows on the surface of the tongue. )


Estou a viver mais do que alguma vez tinha conseguido pensar. Agora, gostaria de ser capaz de pensar o que na vida excedeu e continua a exceder todo o pensamento! É uma intenção transportadora... trans-ascendente... se fizer sentido.

(I am living more than I have ever been able to think. Now, I would like to be able to think about what in life has exceeded and continues to exceed all thought! It is a transportive intention... trans-ascending... if that makes sense.)

Não creio que esteja a viver uma exceção, mas uma excedência que nunca imaginei ser "capaz" de viver. É como se tivesse descoberto um talento artístico e uma vocação artística para uma Arte que nunca imaginava que existia: Ser capaz de viver mais do que imaginava ser viver.  

(I don't believe I'm living an exception, but an excess that I never imagined would be "able" to live. It's as though I had discovered an artistic talent and an artistic vocation for an Art that I never imagined existed: Being able to live more than I imagined living.)

Thursday, September 4, 2025

Eros, the Melancholic and the Tropical


Whenever melancholy 

threatens your atmosphere, 

evade yourself 

and dream of the tropics.


Whenever your mathematical imagination 

hallucinates infinity, 

evade again yourself

and delve into the tropics


Wenn Melancholie deine Atmosphäre bedroht, entkomme dir selbst und träume von den Tropen.

Wenn deine mathematische Vorstellungskraft Unendlichkeit halluziniert, entkomme dir selbst erneut und tauche ein in die Tropen.

Wednesday, September 3, 2025

Eros, o Navegante-Salvador e o Navegante-Náufrago


 No porto de refúgio, encontrei Eros, o Navegante-Salvador, 

e Eros, o Navegante-Náufrago.

Ambos exaustos e alucinados por tanta tempestade fascinante...

Tuesday, September 2, 2025

Eros, o Oscilante e o Suspenso


 Se o Amor é Vida aérea e eólica...

(então, as pessoas amadoras estão sempre em metamorfose impossível para Pássaro e Vento e suas variações, entre brisas e ciclones)

Tuesday, August 26, 2025

manuscritos


 os manuscritos aquecem a argila da casa, os arcos de argila da casa, as mãos fazem o espaço-tempo do corpo-manuscrito, mãos lentas oscilando entre o fogo-do-chão e o vento-da-janela

por vezes os manuscritos são ruínas: os primeiros manuscritos elaboram as primeiras ruínas, enquanto a argila aquece nas mãos, ambas as mãos perdidas, reencontradas nas elipses que unem o círculo do peito e o círculo do ventre

por vezes os manuscritos são alimentos: os primeiros manuscritos cozinham os primeiros alimentos, enquanto as mãos exaustas pressentem o impulso de uma carícia capaz de tudo: rasgar os primeiros manuscritos ou proteger os sinais vitais desses primeiros manuscritos     

poema feminino como expressão-invenção-descoberta


 Porquê imaginar e escrever sob a vitalidade de uma Mulher-Poeta, Eva F.? 

Entre "Órbitas Primitivas" (Famalicão: Quasi, 2007) e "Desejo Primordial Infinito" (Lisboa: Atlantic Books, 2024), escrever é um esforço espiritual de aproximação da vida sentida, expressa, comunicada e (des)compreendida no feminino. Antes de escrever, é necessária uma nutrição de literatura feminina, especialmente contemporânea, para permanecer neste mundo e nesta cadeia próxima de gerações que vibram ainda agora na minha atmosfera e que se encontram ainda agora na minha respiração inquieta. Leio e estudo: Florbela Espanca e Natália Correia, Clarice Lispector e Hilda Hilst, Emily Dickinson e Sophia Andresen, Alejandra Pizarnik e Ingeborg Bachmann, Sylvia Plath e Anne Sexton, Audre Lorde e Paulina Chiziane...).

Os livros dessas mulheres nutrem a escrita de meu espanto. Meus poemas desejam significar um processo de expressão-invenção-descoberta, como se fossem sempre somente a escuta imperfeita de um único poema feminino contínuo e quebrado, orgânico e ferido. As raízes crescem à superfície e ao fundo, há transparência e segredo, exposição e claustro. Cada poema persiste o desenho Infinito da Mulher-Poeta: um nu sempre incompleto e um labor sempre inacabado, talvez a intimidade plena seja impossível, talvez a perplexidade seja inexcedível.

A língua descobre-se: finitude impregnada de espontaneidade desejante infinita ou transfinita. Aqui e agora, cada poema permanece no Princípio um Desejo de encontro face-a-face, silêncio entre as palavras. 

Os símbolos do Desejo-de-encontro procuram interrogar-se, exclamar-se, entender-se nas figuras expressivas da aproximação e da confidência, como se minha mãe, minha irmã, minha amiga estivessem aqui e agora, falando, murmurando, soletrando a relação vital com o sentido e o absurdo... Compreendes-me no desejo de ser própria? fazer acontecer o momento de expressão-invenção-descoberta de mim?

Monday, August 25, 2025

Eros, o Opressor e o Libertador


 Na sombra das paredes do Labirinto, faz frio e dói
Eros constrói paredes novas no Labirinto das carências
Eros, o Opressor

A sombra do labirinto é gelo e dói. 
Todos os músculos doem sob a máquina do Labirinto gerando gelo
injetando gelo nas veias de Ariane, a perdida, a mais corajosa na hora de perder
Ariana é a audácia de penetrar no terror 
desfiando a Invenção do Retorno

Nos olhos de Ariana, brilha Eros, o Libertador

(Quando a dor do frio faz parar o corpo no meio de nada
a confusão geográfica interroga-me: Será a Crueldade uma matéria divina?
Será a Crueldade o zénite da história noturna?)

No fim do Poema, há outro Poema do Fim colhendo os espinhos
colhendo somente espinhos durante o nu incompleto da Libertação

o Poema do Fim colhe espinhos com a ternura dos moinhos
moendo espinhos para a farinha do pão final 
tanta fome no Fim do Poema ao sol
doendo também
como se calor e frio fossem a mesma máquina cruel
que mata a fome

o Poema colhe espinhos ao sol 
meu sol face-a-face meu sol virgem meu sol nascente 
partindo para o distante teu peito sucumbindo na corda da minha harpa
sem nenhum lamento 

meu zénite de minha história noturna desfiando a Viagem e a Casa
zénite mais nu e zénite mais sanguíneo do que espuma de rosas 
após a colheita dos espinhos e os segredos penetrantes da farinha 

Wednesday, August 20, 2025

Eros, o Radical e o Réptil


 Um raio de obscuridade atravessa o Sol: é uma flecha-enigma de Eros, o Radical, e de Eros o Réptil, que ataca ao Meio-Dia e abre as veias do Tempo Inteiro, porque simplesmente e absolutamente deseja saber as causas primeiras e últimas e medianas, causas por dentro e por fora e através, 
a força das causas e sobretudo
a energia da força das causas e sobretudo
a fonte da energia da força das causas e sobretudo
a plenitude e o vazio das fontes, as fontes mais íntimas das raízes
as raízes mais íntimas dos répteis, os répteis mais íntimos da terra vermelha e da carne vermelha

Há um medo abstrato da História que Eros deseja saber para poder atravessar os raios mais negros ao Meio-Dia e à Meia-Noite quando os olhos aderem ao Invisível, as Pálpebras Descidas tocando talvez em nada, talvez no ar, talvez no pó  

Thursday, August 14, 2025

Eros, o Arquiteto


 Eros, o Arquiteto que transforma o corpo, a casa, o mundo 

Eros, o Construtor e o Persistente, fiel às Artes do Limite onde a imaginação inventa as matérias quentes, as cores quentes, os espantos tão quentes que queimam a pele com a Liberdade Absoluta

Eros, a Inteligência extática, a Evidência do Projeto de todas as habitações e de todas as passagens 

Eros, o Hipnotizador


Eros, o Hipnotizador

(alteração indefinida dos sentidos enquanto perdura sua força) 

Eros, o Ondulante

(alteração indefinida dos equilíbrios enquanto perdura sua força)

Regressar à espuma oceânica