Monday, October 25, 2010

Artérias do Tronco



imagino o teu corpo como um luar ao meio-dia

fervem de nada as extremidades as palmas das mãos e dos pés

concentro-me na fábula do teu tronco a nudez ascendente medito-me longe
agito-me de nada e coloco o vácuo na intensidade exacta do mistério
desobedeço ao contraditório e faço pão do meu pó de imaginar-te
sem atmosfera

adormeço com a ideia de abismo de infinito de músculo antes do excesso de nada ou desintegração em minério e seus ciclos sublunares entre a queda e o voo cortante

o sonho traz as fibras e as redes que fazem e desfazem a imaginação de um corpo inteiro o interminável
teu tronco o iluminado de artérias centrais como sistemas solares em sonhos comigo

um luar de meio-dia uma chave de luz e sombra um princípio parado de perfume do melhor silêncio que abre o universo para a porta de algo de talvez uma história
página sim página não entre escrever e perder a fala ou a boca ou os membros que comunicam

caí de descer sem beijo até às margens da água da tarde arrefecendo os meus dedos numa outra chuva que virá donde vem a vida com seus animais ávidos de compreender o princípio

a memória é um símbolo de desejos carentes de sol

as artérias do tronco seriam navegáveis se tivessem um cais

nos meus mapas de ti também encontro a linha do mito que ensina a linguagem do incêndio

na infância futura saberá a minha pele hesitante levantar o segredo das horas e dos símbolos

começa a vida a devorar seus mistérios seus troncos femininos universais

aprenderei a desejar o vácuo onde só os sonhos são sempre maiores que o sonhador

a minha circunferência tem uma serpente invisível a desenhar o seu desenhador
que aprende a rir nos trópicos de nada nas florestas livres que correm nas artérias

no princípio será sempre o inatingível

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