Thursday, August 8, 2024

Laeta Scientia: Fröliche Wissenschaft: Um Triângulo Vital

 

Quando chegou "A Gaia Ciência" ao corpo inquieto das nossas mães?

- A minha mãe começou a ler Nietzsche em francês num cais do Sena. Exercício de relaxamento mental de domingo à tarde, quando o tempo parece infinito. Ainda não era mãe: foi muito antes de gerar vida e dar à luz. Era então uma pós-adolescente viajante. Mas essa leitura pertence à lenda da nossa formação espiritual.

No diário dela, escreveu: "Deverei re-abençoar-me cada manhã, sob a furiosa alegria de re-nascer, através da energia-matéria psicofísica da luz em mim: 'Em nome da Mãe-Poiesis, da filha Metáfora e do Espírito Simbólico'. Trespassa-me, transborda-me, transporta-me o sentimento singular de gratidão maior-do-que-eu por aprender a amar o presente e a sua criatividade a cada instante excepcional."

Lê-se, depois, uma citação-paráfrase com uma caligrafia de júbilo: « Je dois me découvrir moi-même et créer un idéal propre. ... Je veux devenir celle que je serai - la femme nouvelle, unique, incomparable, celle qui se donne ses propres lois, celle qui se crée elle-même ! » (Le Gai Savoir, § 335)

- A minha mãe diz que entrou e repousou na primeira estação Nietzsche, "A Origem da Tragédia". Creio que ela praticaria outra bênção trinitária. Diria talvez: 'Em nome de Pathos/Paixão, Fobos/Terror e Ananké/Fado, quero escrever o Poema Trágico da minha Vida como um escudo de aço e granito onde meu coração se abriga e se salva, entre taquicardia e hiper-taquicardia, mil cavalos soltos no vento'.

O que pode significar esta auto-bênção ou auto-evocação da vida à vida no interior da consciência sensível, a consciência das feridas dolorosas?

É preciso fazer sentido com intriga, drama agónico e personae mortais... Estamos terrivelmente perdidas e só a Arte Trágica pode desenhar um mapa sobre o caos deste chão absurdo que é a terra dos vivos sem redenção: um mapa ideal sobre o real, como uma grande jangada sobre as águas. Quando as águas estão calmas, a tua jangada parece um chão habitável. Quando as águas se alteram, as cordas dos troncos da jangada gritam, uivam, resistem com todas as fibras - até que explodem...

- Sinto nas nossas mães uma fascinação pela Estética da criação. Eu aproximo-me de Nietzsche por outros caminhos. Sinto outra brutalidade simples no meu Nietzsche que se pode sintetizar numa espiritualidade elementar: "Em nome do ar, do fogo e do sangue, amo esta Vida-em-mim, aquém-e-além-mim, aquém-e-além-minha-tristeza, aquém-e-além-minha-alegria."

- Pareces-me mais metafisicamente nietzscheana do que as nossas mães. Por que segues Nietzsche até aos elementos? Mas, antes de tudo, não compreendo por que lês Nietzsche: tu, uma mulher viva, livre, desejante. Porquê ler Nietzsche? Não te inibe a leitura, nem te repugna a incorporação (Caveat: Toda a leitura é uma incorporação!), o seu naturalismo, darwinismo, germanismo, misoginia, proto-fascismo?

- Não sei explicar como a minha apetição de leitura atravessa essas correntes contrárias ao meu Desejo e à minha Capacidade de viver... Sou talvez mais capaz de abstração e de metabolismo do que imagino... Penso nas forças criativas de Lou Andréas-Salomé e de Simone de Beauvoir... As vidas são obras-primas inimitáveis para contemplar e aprender conexões entre história e biografia. Porquê Nietzsche, mais do que Kant, Freud ou Marx? Porque, na minha incorporação anti-nietzscheana de Nietzsche, sinto uma certa paz nova de alma pagã, mas pagã pós-religiosa, no limiar da fundação: quando uma nova sabedoria propõe outra língua e outro rito entre nós. 

- Quando Freud explica o êxtase-destino do Desejo, sentimos imediatamente o horror da carência, da angústia, da ilusão... e a inevitável perda futura. A clínica do Desejo é uma pedagogia para o ascetismo?Se o Desejo tende para infinito, o medo repressivo acelera e ultrapassa o Desejo. Se cresce o Desejo, cresce ainda mais o medo. Talvez a minha leitura-Nietzsche signifique um sinal de paz sobre o infinito do Desejo, uma paz-sem-medo. Desejar-me criadora: desejando-me quem serei, ainda incógnita futura laborando, fermentando, viajando, mas já agora e sempre sem medo de desejar.

- A maternidade feliz das nossas mães é uma declaração existencial anti-nietzscheana. No fundo de tudo, desejar-se criadora transcende o escritório ou o atelier do ego genial na sua virtude estudiosa das origens exemplares e fulgurante de Novo. Desejar-se criadora é o processo plural da geração corpo-a-corpo: intensidade musical de Eros e a dança nua com vibrações íntimas... Acontecem poemas de carne viva, poemas intercorporais de terra e fogo expandindo vida neste mundo... 

- Nietzsche não conhece nem reconhece o erotismo da maternidade. Não sei se alguma vez imaginou dar vida e ser dom sexual de vida. 

- Paradoxo de vitalismo com Eros estéril... Como seria Nietzsche no seu labor erótico? Seria capaz de perder os sentidos na vibração de corpo inteiro? Ou estaria numa fixação pré-genital? Ou numa genitalidade sob controlo anti-gerador, sob qualquer disciplina (por exemplo, coïtus interruptus)? Não há em Nietzsche a loucura feliz de Eros materno.

- Um Ciência Alegre da vida oferece uma Arte Erótica do dom.

- No fundo das bênçãos da nossas mães, há outro triângulo antigo que mostra a força unitiva dos elementos: Mãe-Eros, Filha-Flor, Espírito da pele nua. Eros, a verdade mais vibrante, penetra todas as sementes "em nome de Mãe-Poiesis, Filha-Metáfora e Espírito Simbólico...; em nome de Pathos, Fobos e Ananké...; em nome de ar, fogo e sangue..." 

 

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