Tuesday, February 1, 2011

mutilação





ainda jovem cortaram-lhe a veia que ligava o coração ao espanto, o espanto ao milagre, o milagre ao êxtase, o êxtase ao outro lado do tempo e a todas as veias futuras... 
depois da catástrofe, disfarçou-se de pastor onde havia muitos animais selvagens. morderam-lhe progressivamente nas outras veias passadas. 
já tinha perdido a fala e depois perdeu também o silêncio. ouvia vozes metálicas a dizer o fim. e faltou-lhe a fúria cósmica de ripostar. 
tarde demais para aquela fúria amadurecer em bons frutos de Kaos.

guerra é guerra. os guerreiros nunca regressam inteiros. ir à guerra é a perdição do Caminho. 
a guerra pode devorar o guerreiro para sempre. É preciso uma imensa musculatura espiritual para um homem e uma cidade regressarem à paz e reconstruírem o corpo vivo após a mutilação.
a liberdade voadora dos sonhos sofre a maior mutilação.
mesmo em sonhos, um voo mais livre, uma atmosfera mais transparente, um músculo mais firme poderiam salvar um homem, uma cidade. evitar a persistência da terra devastada, a posição da queda.

mas nada. nenhum sonho, nenhum impulso capaz. 
a casa ficou em ruínas antes do Projeto de construção. 
apesar do sol e da planície. no Fim da guerra, porque sentia o "fim" da guerra como falso. intervalo mínimo de fogo durante o tempo indefinido da violência.
levou o segredo com ele para lugar nenhum. sofrendo de ter sido. impotente de ser Outro. tempo parado no instante da Catástrofe. pesando mais do que os pulmões suportam. 
o que foi não será.

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