Sempre que desejo, imagino. Enquanto desejo, imagino. Porque desejo, imagino.
Cada vida desejante imagina no céu a sua Via Láctea guiando o tempo para a vinda tão esperada, tão amada, tão pressentida, que já vive e já move e já cria todo o espaço
As imagens das vidas desejantes sonhadoras são concepções ou compreensões: cada sonho tem o código e a inteligência do código dos caminhos futuros: o tempo inteiro abrindo o espaço enquanto o sonho concebe e compreende e pressente
Cada sonho explica o cosmos das vidas sonhadoras, declarando amor no movimento, redação sobre a pele do céu, como se, por acaso, a imagem do céu fosse a imagem dos corpos amados que querem ocupar sempre o mesmo espaço e mover sempre o mesmo círculo
Por acaso significa talvez por necessidade: a ignorância que surpreende a vida que ignora as suas moções mais primordiais, desde antes de conceber-se como algo-alguém na geometria quente dos animais em movimento neste mundo
Por acaso, num sonho, o desejo de um fruto começou a escavar um poço para regar as árvores do jardim. Quando o desejo tocou na dureza do desconhecido e desesperou do futuro da água nascente, a temível rocha do fundo da escavação não era o fim das forças e o deserto futuro vindo de dentro, mas a surpresa de um tesouro que esperava sob muita terra dura algo-alguém em movimento pela força escavadora do desejo
Por vezes, escavar um poço num pomar em perigo de vida e morte é como conceber um caminho redigido na pele do céu

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