Eva sobe às árvores no Jardim, Vénus sobe das águas no Oceano
infinita ascensão da Sororidade no Segredo
Eva conhece os ninhos de serpentes, Vénus os sais de espumas
em todos os museus do mundo, muitas mulheres nuas, muitas irmãs Evas, muitas irmãs Vénus,
dobram-se no granito e no mármore, saindo das ondulações de árvores e de águas, procurando inquietas um instante de paz e de sigilo: como se pudessem um instante desejar ser deusas
nas suas insónias de adoração e de imaginação, uma multidão de homens esculpe mulheres nuas, pinta mulheres nuas, escreve mulheres nuas... depois, condenadas à exposição eterna até que se extinga a matéria finita da escultura, da pintura, da escritura.
a multidão de homens, que despe as mulheres, sofre de carência e de abundância, oscilando muito perigosamente entre êxtase e angústia
essa multidão de homens imagina e enlouquece imaginando:
como se pudessem um instante desejar o ser de deusas
como se pudessem criar a Forma do Absoluto com matéria
enquanto as mãos transpiram.
São os piratas embriagados de Poiesis.
no apogeu do seu álcool, os poetas das mulheres nuas imaginam a sua verdade na sua loucura: a incapacidade de não-imaginar enquanto remam no fundo das naves de Desejar.
os poetas das mulheres nuas interpretam o seu hálito alcoólico: somos animais mais inclinados por Desejo do que Amor, mais febris de voracidade do que dom-de-vida
os poetas inventam sinais, esculpindo, desenhando, escrevendo a nudez das mulheres à luz da Ideia-emoção da pele nua do corpo integral de mulheres, mais ou menos divinas e concretamente carnais, mais ou menos próximas e abstratamente intocáveis
em todos os museus do mundo, a multidão antiga dos poetas das mulheres nuas excita outra multidão de homens que irrompe no chão e no teto, atravessa as paredes, armados com a fúria de devorar o granito e o mármore e toda a carne humana dos incêndios.
Estes homens sentem a vertigem dos primeiros poetas, devoradores de carne humana, e surpreendem-se obsessivos-compulsivos numa aceleração sem consciência do seu sem-princípio e do seu sem-fim
um segredo interroga uma dúvida: Porquê despir e expor sempre mais as mulheres dentro de nós?
Estamos no caminho pedagógico do Desejo
em metamorfose amorosa? ou erramos numa solidão imaginante,
incapaz de fazer caminho, encontrar caminho, seguir caminho?
muitas Vénus se perdem e se esgotam e se afogam durante o banho enquanto fogem das margens onde os poetas predadores vigiam, gritantes e desesperantes
Poiesis persiste através de poemas insolúveis
os poetas criam a urgência e sofrem a urgência
de fazer sinais, consumir sinais
muito futuramente, imaginamos Poiesis atingindo o Poema-Planalto onde-por-onde
o Desejo entra na órbita dos sinais do Amor
o Amor é uma Abstração do jardim que oferece a hora vazia e o lugar vazio: um templo mais sagrado do que viver e morrer
o Amor é a Construção do jardim: um templo de corpos humanos em paz, o refúgio que protege o invisível e o véu que protege o intangível
Vénus desenha um triângulo e um círculo no seu diário, dentro do seu silêncio próprio de dobrar e desdobrar o tempo mais interior do que respirar
o Amor liberta a harpa gratuita, dentro do silêncio: um segredo absoluto floresce:
o quarto próprio e a túnica própria

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